sábado, 29 de março de 2014



mensagem  para  um  pai  alcoólatra




Perdoa-me, PAI 

É importante que leia o meu desabafo. Sepre falei que, quando crescesse, queria ser igual ao Senhor. Mas... infelizmente, eu mudei de ideia. Não imagina o que sofremos quando anoitece e não vem para o jantar, pois só chega em casa de madrugada: assim mesmo, embriagado. Olhe, não me importo que chute meus brinquedos, pise-os, atire-os contra as paredes, bata raivosamente em mim, sem motivo, quando lhe pergunto:
Por que o senhor não para de beber? 
Pai... não me envergonho de usar roupas velhas e sapatos furados e nem me incomodo com o pouco alimento que como. Na verdade, nada disso teria importância se o senhor não bebesse. Por favor, não fique parado nos bares perdendo seu tempo, seu dinheiro e sobretudo, sua saúde, bebendo e farreando ao lado daqueles que dizem ser "seus amigos". Lembre-se, nós precisamos do senhor. Eu queria apenas tê-lo em casa todas as noites para poder dizer antes de deitar: "BENÇÃO PAPAI". 
Sabe, eu senti muita pena de vê-lo um dia desses, deitado na calçada. Os garotos que passavam começaram a atirar-lhe pedras. Seus cigarros espalhados pelo chão, seus bolsos virados e lá estava uma garrafa de bebida quebrada aos seus pés. Pedi para que não fizessem aquilo e eles perguntaram: 
- Você conhece este cachaceiro? 
Puxa, Pai, tive vontade de dizer não, mas lembrei-me que certa vez o senhor me disse: 
- Filho, o verdadeiro homem não diz mentiras. 
Então, tomei coragem e respondi-lhes: 
- Sim, eu o conheço: é meu PAI. 
Eles riram e falaram: 
- Se fôssemos você, teríamos vergonha de chamar esse cachaceiro e bêbado de PAI. 
Baixei a cabeça, humilhado. Meus olhos se encheram de lágrimas e chorei. Chorei como nunca tivesse chorado na vida. Chorei o sentimento da dor e do amor, tentei enguê-lo. Pedi para que levantasse. Enxuguei seu rosto suado pelo sol do meio-dia. Contudo, meus esforços foram inúteis. O senhor parecia não ouvir, Gemia, dizia palavras incompreensíveis e rolava de um lado para o outro na calçada imunda. 
Os garotos foram embora dizendo: 
- Você esta lidando com um pau d’água, sem vergonha. Deixe-o ai, pode ser que, ao tentar atravessar a rua, um caminhão passe por cima dele e o mate. 
Pai..., foi duro ouvir aquilo. Eu senti como se o mundo inteiro desabasse sobre mim, mas mesmo assim, quero que saiba de uma coisa: 
“O voto que fiz de amá-lo, respeitá-lo e querer-lhe bem, hei de cumprir sempre, mas... quando crescer, não quero ser igual ao senhor.”... 

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